CULTURA

Franco Catalano: 'Subserviência monumental'

Franco Catalano: 'Subserviência monumental'

Quarta, 27 de janeiro de 2021

Subserviência monumental

Franco Catalano

O Brasil carece de símbolos para suas cidades. Monumentos que sintetizem a história local, valorizem sua cultura e materializem de maneira literal ou abstrata as aspirações de seu povo. Em Paris, temos a inexorável Torre Eiffel. De pé desde 1889, expressou nas toneladas de ferro empregadas na construção o domínio do homem sobre a técnica e sobre a natureza. Tão pesada e tão leve ao mesmo tempo, continua sintetizando em si a essência do Art Nouveau sob a ótica francesa. As gigantescas pirâmides do Egito seguem firmes há quase 3000 anos e, de sua construção até os dias de hoje, perpetuaram-se como um dos maiores símbolos da civilização e capacidade humanas. Em Nova Iorque, a imponente Estátua da Liberdade, de cuja concepção participou o mesmo Gustave Eiffel da torre homônima, representa a independência e democracia de que tanto se orgulham os norte-americanos. Por aqui, infelizmente faltam símbolos – e criatividade – para consagrarmos nossos próprios monumentos.

Dirigindo pelas estradas de São Paulo, tive o desprazer de rever algumas das bizarras reproduções da Estátua da Liberdade estadunidense, que complementam a estética imperdoável de algumas unidades das Lojas Havan. Além de exaltar uma cultura que não é a nossa, é feita do material mais barato e ordinário possível e seu posicionamento é totalmente equivocado. Como já tratei nesta coluna em outras oportunidades, nada é mais importante na arquitetura e no urbanismo do que a escolha do local de implantação de uma edificação – ou monumento – no contexto em que se encontra. Nos municípios que “ganharam” uma das dezenas de esculturas em termoplástico que enfeiam as suficientemente feias megalojas da rede, elas acabaram tornando-se pseudos-monumentos locais. Além dos pontos que já mencionei apologia e idolatria aos EUA e péssima qualidade construtiva – a réplica falha mais uma vez: nunca poderá ser um monumento verdadeiro! Segundo o teórico italiano Aldo Rossi, para uma obra ser considerada um monumento ela deve atender a dois fatores: ter qualidades artísticas relevantes e ter uma implantação com intenção monumental. Onde as estátuas fajutas da Havan se implantam? No estacionamento das lojas, defronte a rodovias. Não poderiam estar mais distantes de suas aspirações a símbolo do que quer que seja.

Rio e São Paulo, duas de nossas maiores metrópoles, tiveram a sorte de ter a natureza (no caso carioca) e a arquitetura (no caso paulistano) como aliadas que preencheram o cargo vago de símbolos das respectivas cidades. No Rio, o relevo nos presenteou com o Pão de Açúcar, formação montanhosa que embeleza a paisagem e tornou-se referência mundial como símbolo não só da cidade, mas muitas vezes do próprio Brasil. Na São Paulo dos anos 60, a hoje aclamada arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi desenhou o MASP, edifício que atendeu a todos os requisitos para consolidar seu caráter monumental, motivo pelo qual tornou-se um dos mais fortes símbolos paulistanos. Outras cidades, grandes ou pequenas, não tiveram a mesma sorte. Carentes, abrem as pernas às lojas que querem dominar o mercado e a paisagem, sufocando lenta e cruelmente a brasilidade que lhes resta.

Franco Catalano é santa-cruzense, estudou História da Arte em Madrid e é arquiteto



  • Publicado na edição impressa de 17 de janeiro de 2021


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