CULTURA

Garagem de santa-cruzense é uma verdadeira viagem no tempo

Soldador Carlos Alberto Nunes é dono de dois Karmann-Ghias, além de bicicletas e outras antiguidades

Garagem de santa-cruzense é uma verdadeira viagem no tempo

Carlinhos mostra as relíquias de antes, durante e depois dos Anos Dourados

Publicado em: 24 de abril de 2021 às 02:24
Atualizado em: 24 de abril de 2021 às 02:54

Sérgio Fleury Moraes

Aos 56 anos, Carlos Alberto Nunes, o “Carlinhos da Chica”, só começou a realizar seus sonhos quando questionou a si mesmo: “Se eu for esperar ter dinheiro ou espaço, nunca vou ter nada”. Ele se refere à maneira como iniciou sua inusitada coleção, que hoje inclui dois karmann-Ghia dos anos 1960, um Opala ano 1976, um Fusca 1962, várias lambretas e bicicletas, além de objetos históricos e vários documentos. A casa dele, no bairro Jardim Ipê, tem uma garagem abarrotada e não há sequer espaço para os automóveis. No entanto, Carlinhos se diz satisfeito e agora sonha com um SP-2, outro sucesso da Volkswagen dos anos 1970, ou um Gordini.

Nascido e criado em Santa Cruz do Rio Pardo, Carlos sempre teve paixão por coisas antigas. O “sobrenome” pelo qual é conhecido, “Chica”, veio da mãe, muito conhecida na cidade. ”Este gosto pelo passado surgiu naturalmente em mim, pois na família ninguém era colecionador. Comecei aos 20 anos e fui comprando e trocando”, explicou. Começou com fotografias antigas da cidade, bicicletas, triciclos infantis, placas de automóveis dos anos 1920 em diante e até de carroças.

Na verdade, Carlinhos brinca que não tem o incentivo da família. Afinal, a mulher e os filhos respeitam a coleção, mas não gostam quando ele gasta dinheiro em coisas antigas. Mas o soldador possui uma “tática” infalível quando vai contar à esposa que comprou alguma coisa. “Eu dou um presente antes”, diz, rindo.

Na apertada garagem do colecionador, há Lambretas, Vespas, bibicletas, brinquedos, miniaturas e todo tipo de objeto antigo pelos quais Carlinhos tem verdadeira paixão

Muita coisa foi conquistada mediante troca e venda de objetos, mas invariavelmente Carlinhos costuma se arrepender depois. “Eu vendi muita coisa para o Posto Kafé, quando aquele estabelecimento ‘retrô’ foi inaugurado, mas depois percebi que eram objetos que eu gostava e que provavelmente nunca mais vou encontrar”, contou.

Carlinhos disse que muitos colecionadores se concentram em algum tipo de antiguidade, como brinquedos, armas, instrumentos musicais, carros ou bicicletas. “Eu não tenho preferência. Se é antigo, me interessa”, explica.

Na apertada garagem do soldador, por exemplo, há brinquedos dos anos 1940 ou 1950, como triciclos fabricados com partes de madeira. Um deles, da marca “Condor”, possui exemplares semelhantes oferecidos na internet por quase R$ 5 mil.

Uma bicicleta foi comprada do filho do empresário Antônio Carlos Fernandes, o “Dedé da Pizza”, que fez história em Santa Cruz do Rio Pardo com casas noturnas temáticas. “É dos anos 1950, original de fábrica”, lembra Carlos, orgulhoso.

Penduradas na parede, há todo tipo de antiguidade. “Tenho também uma carteira de carroceiro, que era obrigatória antigamente”, conta. Há outros objetos curiosos, como um extintor de incêndio de bronze ou aparelhos manuais de calibragens de pneus. Também há relógios de ponto manuais, guitarras antigas e até um orelhão da antiga Telesp — inclusive com fichas telefônicas.

Num dos cantos há um galão aferidor para venda de gasolina em estabelecimentos comuns que, segundo Carlinhos, chegou a ser usado em Santa Cruz do Rio Pardo no “Armazém do Mané Forte”, especialmente no início dos anos 1980, quando a venda de combustíveis foi proibida aos finais de semana devido ao racionamento instituído pela ditadura militar. Muitas décadas antes, o equipamento era usado para venda de combustíveis em lojas de secos e molhados.

Em meio aos brinquedos, se destaca uma réplica, em escala maior do que a convencional para miniaturas, de um caminhão Ford ano 1923. É uma réplica diferenciada e perfeita, com batata do diferencial, rodas de madeira e imitação do motor, cujas abas metálicas do motor se abrem. “Eu a encontrei em Jales, bati e olho e pensei: é minha”, disse.

As grandes preciosidades, porém, têm motor de verdade. Enfileiradas lado a lado, estão várias Lambretas, a motoneta com motor “escondido” que começou a ser fabricada na Itália após a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, foi produzida a partir dos anos 1950 e se tornou símbolo dos rebeldes “anos dourados”. Teve uma concorrente direta, a Vespa, também italiana e que igualmente integra a coleção do santa-cruzense.

Carlinhos com orelhão antigo; peça é raríssima hoje em dia

Todas funcionam, dependendo apenas de uma limpeza nas velas e nos carburadores, além de uma carga nas baterias, pois só são usadas de vez em quando. “Dá muito trabalho colocar de volta”, diz Carlinhos, lembrando o espaço apertado da garagem.

Entre os modelos, há versões fabricadas em 1959, 1962, 1964, 1976 e 1980 luxo. Uma menor, ano 1957, modelo standard, é uma motoneta mais “pelada”, uma das primeiras fabricadas no Brasil. Como se não bastasse, Carlinhos possui uma Honda CG “Bolinha” 1977 impecável. As Vespas e Lambretas, embora não desenvolvessem grandes velocidades, tinham motores de até 175 cilindradas.

“Como as rodas eram pequenas e baixas, elas não corriam muito”, disse. Mas eram veículos versáteis, que tinham pequenas maletas e alguns modelos vinham com vidro para proteger o piloto. Além disso, possuíam estepes que não deixavam o dono na mão no caso de furar um dos pneus. Com quatro marchas, alguns modelos tinham a transmissão de eixo-cardã, como num automóvel.

Outras relíquias motorizadas ficam do lado de fora da casa de Carlos Alberto Nunes. São quatro automóveis históricos, dois deles do mesmo modelo e muito raros. O colecionador já teve muitos veículos antigos, como Variant, TL, Corcel e outros, mas a condição financeira o impediu de acumular automóveis. “Então, fui trocando e vendendo alguns, mas sempre com o objetivo de comprar outros”, contou.

Hoje, Carlinhos hoje possui um Fusca 1965 com motor original de 1.200 cilindradas. “É muito difícil encontrar um modelo desses. Aliás, é um dos primeiros fuscas feitos no Brasil”, disse. De fato, o sedã mais vendido no mundo todo começou a ser fabricado no Brasil em 1959, no governo de Juscelino Kubitschek de Oliveira. E logo se tornou uma lenda.

No entanto, a beleza de dois modelos raros salta aos olhos de qualquer pessoa. São exemplares de Volkswagens Karmann-Ghia anos 1965, na cor preta, e 1967, vermelho. “É um carro que chama a atenção. Tem gente que pede até para tirar fotografia e muitos fazem perguntas”, conta Carlinhos, que costuma viajar com os modelos. “Quando paro em algum posto de gasolina, é comum várias pessoas ficarem em volta admirando o carro”, disse.

O Karmann-Ghia foi o terceiro modelo da Volkswagen a ser produzido no Brasil, depois do Fusca e da Kombi. Começou a sair da linha de montagem em 1962, feito quase artesanalmente, o que significava ser um automóvel para os mais endinheirados. O sedan esportivo original deixou de ser fabricado em 1971, quando a Volks decidiu trocá-lo por uma versão mais parecida com o Porsche que culminou num fracasso total. No total, foram fabricadas 23.000 unidades do esportivo, sendo 177 conversíveis.

Entre os dois modelos karmann-Ghia, Carlinhos prefere o modelo preto 1965: “Tem um ar mais retrô”

Carlinhos conta que o automóvel foi montado na fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo sobre um chassi do Fusca. Como todo esportivo, é apertado para quem viaja no banco traseiro, mas o motorista tem um relativo conforto acelerando os motores 1.300 ou 1.600 cilindradas. Mesmo no chassi do fusca, o Karmann-Ghia desenvolvia uma velocidade maior devido ao seu design de linhas aerodinâmicas e glamourosas.

O colecionador já teve um modelo conversível, que precisou vender para, com a ajuda de um empréstimo consignado, ser proprietário dos dois atuais. É comum Carlinhos receber ofertas pelas ruas, mas ele já vai logo avisando que não está à venda. “Sei que vale um bom dinheiro, mas se eu falar algum valor, corro o risco de ficar sem o carro”, conta.

A história do modelo vermelho é curiosa. Carlinhos se encontrou por acaso com o dono, que morava em São Paulo,  num posto de gasolina numa rodovia do Paraná. “Conversa vai e vem, ele me contou que tinha um Karmann-Ghia e topava vender por R$ 25 mil. Me deu um papel com o telefone e eu fiquei tempo olhando aquele número, sem coragem de ligar. Não tinha dinheiro”, contou.

Foi aí que o dono mandou uma foto do carro. Carlinhos não resistiu. Arrumou o dinheiro, se apertou e comprou o automóvel. “Paguei sem ver e sem assinar nada. Só conhecia o carro pela foto, mas deu tudo certo”, contou.

O quarto automóvel é mais “novo”, um Chevrolet Opala 1976 modelo quatro cilindros, também muito bem conservado e reluzente. Porém, Carlinhos não costuma viajar com ele porque o consumo de combustível é maior.

No meio de tanta antiguidade, Carlos é um irrequieto. “Meu sonho é ainda ter um Renault Gordini ou um Volkswagen SP-2”, diz, lembrando do esportivo mais “bruto” já fabricado pela montadora no Brasil. “Também penso num Vemag DKW, com motor de dois tempos”, contou. Para o colecionador, com certeza é apenas uma questão de tempo. 

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