CULTURA

Nos tempos das locadoras

Nos tempos das locadoras

Publicado em: 17 de janeiro de 2020 às 17:51
Atualizado em: 30 de março de 2021 às 15:20

Em pouco tempo, as videolocadoras

desapareceram rapidamente do mercado;

Neisson Rios fez carreira no ramo


PROCURA — As sensações do momento, como era a saga Harry Potter, tinham filas de clientes



André H. Fleury Moraes

Da Reportagem Local

Não parece, mas há menos de uma década ainda era costume da maioria das famílias ir a locadoras, alugar filmes e ligar o aparelho de DVD. Um pouco mais cedo, nos anos 1990, a tecnologia era ainda mais simples: os filmes vinham em fitas cassetes, as chamadas VHS. Quem esteve no ramo durante 19 anos foi Neisson Paulo Rios, 70. Ele inaugurou a “Loc Filmes” em 1990, nos fundos de uma loja na rua Conselheiro Dantas.

Neisson conta que, antes de abrir a própria locadora, poucas lojas alugavam fitas cassetes na cidade. Às vezes, ele tinha que ir até Ourinhos, no antigo “Vídeo Clube do Brasil”, para conseguir filmes para o final de semana.

“O problema é que havia limite de dois filmes por pessoa”, afirma. Também havia uma enorme burocracia: eram necessários cadastros atrás de cadastros.

Quando decidiu abrir sua própria videolocadora, Neisson até teve quem o desencorajasse. “Algumas pessoas do ramo me disseram que não compensava”, afirmou. Não deu ouvidos. “Eu entendi, na época, como alguém evitando concorrentes”, explica. “Estava enganado”, completou, rindo.

Na inauguração da “Loc Filmes”, o acervo de Neisson contava apenas com as VHS. A transição para os DVDs, segundo ele, aconteceu no início dos anos 2000 — quando também transferiu sua videolocadora para a rua Euclides da Cunha.

“Esse período foi complicado. As pessoas alugavam tanto DVD como fitas cassetes. Então, eu tinha que comprar os dois, o que saía caro”, conta. Tempos depois, as VHS desapareceram das prateleiras. Venderam todas.

Na época, as locadoras precisavam ter mais de uma unidade dos filmes



Mulher de Neisson, Sílvia Heleno Justo Rios, 67, acompanhou de perto a trajetória da “Loc Filmes”. Foi ela quem ajudou o marido a perceber que os clientes, na verdade, queriam as produções do momento. “Só da saga Harry Potter nós tínhamos mais de 30 DVDs”, lembra.

Na “Loc Filmes”, cada capa de filme contava com uma numeração que indicava o preço a ser cobrado pelo aluguel. “Os lançamentos, naturalmente, eram mais caros”, explica Neisson. Em outras locadoras, havia também a classificação dos filmes por cores.

Além disso, quando o filme era muito procurado — e poucas vezes se encontrava nas prateleiras — o cliente podia optar por reservá-lo. “Na quinta-feira era de uma pessoa. Para a sexta-feira, já tinha outra interessada”, afirma Rios.

Finais de semana e feriados prolongados costumavam ser lucrativos para a “Loc Filmes”. Neisson lembra que fazia promoções, como “alugue dois filmes pelo preço de um”. Para diversificar o acervo, o casal também implementou, na videolocadora, um “sebo literário”.

O mercado obedecia uma ordem que sempre era respeitada: as produções iam primeiro ao cinema. Depois, para as locadoras. Somente depois é que o filme aparecia na televisão.

Os filmes da “Loc” eram organizados por prateleiras. Havia as seções comédia, clássica, infantil, ação, aventura ou drama. Mais problemática, a “seção adulta”, com filmes pornográficos, ficava a portas fechadas.

O aluguel do filme adulto, em geral, era feito discretamente. “As mulheres só locavam comigo”, conta Sílvia. “Os homens, em contrapartida, pediam para mim”, completa Neisson.

“Alguns clientes nem chegavam a entrar no setor adulto. Chegavam no balcão e já pediam o filme desejado. Eu entrava, pegava, colocava numa sacola e a pessoa já ia embora. Podia até pagar depois”, lembra Rios.

Mas alguns adolescentes também tentavam alugar os adultos. “Chegava a ser engraçado. Eles vinham ao balcão e diziam que o pai havia autorizado. Eu, então, pedia para ligar para obter a confirmação. Desconversavam na hora. Diziam que o pai tinha viajado, por exemplo”, ri.

O setor adulto tinha de ser constantemente vigiado. Às vezes alguma criança escapava e, pela curiosidade, acabava entrando. “Era uma correria para tirá-la do local”, afirma Sílvia.

Outro problema acontecia quando os filmes voltavam estragados. Os DVDs estavam riscados, principalmente os infantis. Na época das fitas, elas chegavam arrebentadas. “Emendar era difícil”, conta Neisson.

Também havia filmes que desapareciam, sobretudo da seção adulta. “Às vezes, eu chegava na prateleira e encontrava apenas a capinha. Não tinha DVD dentro”, emenda.

Decadência

A "Virtual Vídeos", nos anos 1990: locadora foi uma das últimas a fechar



Para Sílvia, não foram os atuais serviços de streaming — como Netflix ou Amazon — que deram início à crise das locadoras. “Primeiro foi a pirataria. Começaram a vender filmes em todas as esquinas pelo mesmo preço, ou até mais barato, do que um aluguel. Não dava para enfrentar a concorrência de maneira honesta”, afirmou.

Depois, veio o avanço da internet, pela qual filmes passaram a ser reproduzidos online. Com download gratuito, ninguém mais se interessava pelo aluguel. Neisson ainda se orgulha de ter conseguido vender sua locadora. “No geral, a maioria fechou as portas”, conta.

Ele passou o ponto a um empresário de São Paulo, que abriu um bar temático no local. A videolocadora não deixou de existir, mas ficou nos fundos. O bar fechou pouco tempo depois de aberto, quando uma tragédia terminou com uma pessoa morta. 



  • Publicado na edição impressa de 12/01/2020


SANTA CRUZ DO RIO PARDO

Previsão do tempo para: Sexta

Períodos nublados com chuva moderada
26ºC máx
14ºC min

Durante a primeira metade do dia Céu encoberto com chuva fraca com tendência na segunda metade do dia para Céu limpo

voltar ao topo

Voltar ao topo