CULTURA

Os reluzentes placas-pretas e o glamour da originalidade

Colecionadores de carros antigos têm o direito de exibir placa preta quando há originalidade

Os reluzentes placas-pretas e o glamour da originalidade

Albano com o imponente Ford Fairlane, importado, ano 1964, com câmbio automático

Publicado em: 05 de junho de 2021 às 02:19
Atualizado em: 05 de junho de 2021 às 02:42

Sérgio Fleury Moraes

Um carro antigo bem conservado por si só já chama a atenção nas ruas. Porém, muitos têm placa preta, o que também não deixa de despertar a curiosidade de muitos. A cor da placa, autorizada pelo Detran, é referente a um veículo de colecionador que deve possuir de 70% a 80% de originalidade. Assim como carros diplomáticos possuem placas azuis e os táxis as vermelhas, os colecionadores têm direito ao sonho da placa preta, que só é autorizada mediante vistoria de técnicos especializados. Geralmente o proprietário filia-se a um clube de automóveis antigos.

Em Santa Cruz do Rio Pardo há alguns veículos com placas pretas. Seis deles são do colecionador Albano José Balielo Bertoldi, 53, motorista de caminhão que, mesmo aposentado, ainda está na ativa. Sua paixão pelas raridades começou na infância, mas Albano só conseguiu começar a realizar seu sonho quando já era casado.

Na verdade, ele nunca perdeu dinheiro com o hobby, mas o difícil mesmo é se desfazer de algum veículo. Quando isto acontece, é porque Albano começou a se “apaixonar” por outro e, como costuma dizer, “perdeu o amor” pelo carro que será vendido.

Fusca vermelho 1978, carro de viúva
O interior do Ford Fairlane importado ano 1964, com motor V8 e até câmbio automático

Para se obter uma placa preta, é preciso cumprir uma série de exigências. O veículo precisa ter no mínimo 30 anos de fabricação e o proprietário deve obter um Certificado de Originalidade, que só é expedido por uma entidade credenciada e reconhecida pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). O parecer vai atestar o índice de originalidade do veículo, como a pintura do padrão da época, rodas originais de fábrica, interiores sem alteração e tapeçaria em bom estado.

Claro que o carro pode ter sofrido algum reparo na lataria, mas o serviço deve ter sido feito com qualidade, além do motor conservar partes cromadas. Com a placa preta, o veículo ganha o status de reconhecimento histórico e até uma série de benefícios, dependendo do Estado. Um deles é a dispensa da inspeção veicular para controle de emissão de gases poluentes, do airbag frontal e até mesmo do cinto de segurança.

No caso do caminhoneiro, a coleção começou com um Fusca vermelho ano 1978, que Albano negociou com uma viúva. “A gente brinca que fica monitorando as viúvas. Depois veio um Fusca azul 1971, que pertenceu à professora Zilda Rhoder. Eu fiquei muito tempo ajeitando a compra, até que ela concordou”, contou Albano.

Geralmente, os carros já estão bem conservados e com alto índice de originalidade. “Quando preciso mexer em algo, é pouca coisa”, disse. “Eu não compro veículo que necessita de muitos reparos, pois aí você fica na mão de tapeceiro, funileiro e outros profissionais. É melhor não ter dor de cabeça”, avalia.

Um dos “xodós” é uma perua Volkswagen Variant ano 1971 vermelha, ainda com a frente “chata”. Pelo estado de conservação, é uma raridade que Albano não negociou diretamente. “Um amigo comprou de uma família. Era de um único dono e ele havia falecido. Quando fechou o negócio, ligou para mim. Vi as fotos, gostei e acabei dando um lucro para ele”, disse.

Variant de Albano: relíquia que não tem preço

A Variant é um dos modelos preferidos do caminhoneiro. E não apenas dele. Nos anos 1970, num evento promocional, o tricampeão mundial de Fórmula-1 Jacques Stewart foi convidado para testar cinco automóveis brasileiros num autódromo. De todos, ele indicou a Variant como o melhor carro, com precisão na dirigibilidade.

O modelo 1971 possui ar quente, acionado através de uma pequena alavanca, e um quebra-ventos no vidro traseiro. É considerada da primeira série, com mudança apenas no farol em relação ao modelo do ano anterior. A partir de 1972, a Volks mudou a frente da Variant.

Albano já teve outros modelos, nem todos com a placa preta. Ele se desfez de um Dodge Charger RT, por exemplo, para adquirir um outro modelo. E que modelo: é um Ford Fairlane ano 1964, o mesmo número da placa, que é preta. Na realidade, a mulher do caminhoneiro, Cássia, não gostava muito da posição do banco traseiro do Dodge, já que o carro é baixo por ser esportivo.

O Fairlane é considerado “mosca branca” e está impecavelmente conservado. Apesar de ser um modelo da Ford dos Estados Unidos de 1964, é um carro com câmbio automático. O único obstáculo é o consumo do “motorzão” V8, já que ele foi fabricado numa época de gasolina barata. Na estrada o consumo é cerca de sete quilômetros por litro, mas na cidade cai para impressionantes 2,5 quilômetros.

Para Albano, entretanto, nunca se deve correr com um carro de colecionador. “O automóvel antigo deve ser curtido pelo motorista, ouvir o ronco do motor, a paisagem e apreciar a dirigibilidade de um carro confortável”, afirmou. A única manutenção no Ford Fairlane foi a troca do sistema de freio traseiro, cujo reparo foi feito em Santa Cruz do Rio Pardo. O V8 está avaliado em cerca de R$ 150 mil.

O caminhoneiro ainda possui uma motocicleta Yamaha RX-180 ano 1981, com apenas 16.000 quilômetros rodados, além de uma motoneta Caloi da década de 1980. Surpreendentemente, ele usa uma casa na vila Fabiano apenas para abrigar as raridades. Com as paredes modificadas — e em alguns casos, derrubadas —, os veículos ficam acomodados na sala, cozinha, quarto e garagem. Todos com capas de proteção.

Albano recebe propostas quase todas as semanas, quando algum carro está na rua. Na sexta-feira, pouco antes da reportagem chegar à “casa dos automóveis antigos” do caminhoneiro, uma mulher o abordou na rua e quis comprar o Fusca azul. Ela “ficou de pensar” na oferta de R$ 35 mil. A jornalista Thelma Kai confirmou que o carro pertencia à tia Zilda Rodher, que o comprou zero quilômetro para lecionar na usina São Luiz. “Muita gente andou no Fusca da tia Zilda. Ela carregou muitas crianças”, contou.

Detalhes do porta-malas gigante, cujo macaco se parece com uma arma, e a placa preta do carro

“Mas é difícil eu deixar algum desses carros na rua. Já fico preocupado quando uma criança se aproxima deles”, advertiu Albano, mostrando seu extremo cuidado com as raridades.

Ele é proprietário também de um carro mais novo, um Chevrolet Tracker, um modelo SUV de luxo. Pois é este veículo que Albano usa em estradas rurais ou para o dia a dia. “Com os antigos, nem pensar”, disse. O caminhoneiro ajudou o filho mais velho, que é estudante de Odontologia, a comprar um Corsa. “Pelo menos ele não pega minhas raridades”, brincou.

 

Empresária conserva Fusca 1967 que pertenceu ao pai: ‘valor sentimental’

Simone Manfrin não é colecionadora, mas cresceu andando no velho Fusquinha

No caso de Simone Maitan Balielo Manfrin, 53, o Fusca azul ano 1967 placa preta tem um valor sentimental. O Volkswagen foi comprado pelo pai, Tito Balielo, no mesmo ano em que Simone nasceu. Tradicional comerciante do ramo de autopeças, Tito cuidou do Fusca como se fosse um membro da família. Depois, deu o veículo à filha mais velha.

Balielo morreu em fevereiro do ano passado, mas ficaram as lembranças dos passeios e da época em que Simone, ainda criança, andava no pequeno porta-malas atrás do banco traseiro, com os dois irmãos. Ou, então, das aventuras quando o pai adaptou um pequeno terceiro banco dianteiro para a filha.

O pai de Simone comprou o carro no mesmo ano em que ela nasceu: 1967. Desde então, o Fusca virou “membro” da família

“Como eu fui criada dentro do Fusca, meu pai passou este carro para mim pouco antes de adoecer de uma maneira mais grave”, conta a professora, que hoje é diretora da Tutor, fabricante de alimentos para pets de Santa Cruz do Rio Pardo. “Acho que o carro representa um pouco daquilo que meu pai deixou. Por isso tenho tanto amor nele”, disse.

O comerciante usava o carro para trabalhar. Nas viagens para São Paulo, por exemplo, Tito retirava quase todos os bancos para trazer uma carga maior de autopeças, transportando caixas até o teto. Mesmo assim, tinha um cuidado especial com o veículo. Por trabalhar no ramo de autopeças, ele tinha facilidade em encontrar peças originais.

Segundo ela, o Fusca tem praticamente 80% de originalidade e conquistou a placa preta a tempo de o pai “Tito” Balielo ver. Foi praticamente uma cerimônia festiva, com direito a fotografias. “Eu quis homenageá-lo em vida”, afirmou.

Quando o Fusquinha ganhou placa preta, foi uma festividade

O carro é tão querido que Simone Manfrin quase nunca o usa. Quando o marido Denis Manfrin ou um dos filhos quer dirigir é preciso, antes, ouvir uma série de conselhos da dona. “Na hora de lavar, eu também falo um monte para os frentistas do posto”, conta, rindo.

Defeito, o carro quase não sabe o que significa. “O motor é original e nem sei qual é a quilometragem, mas dificilmente estraga. É Fusca, né”, diz, orgulhosa. O veículo possui direção original, estofados e até a calota com que saiu da fábrica.

Tito Balielo, primeiro dono do Fusca

O Fusca chama tanto a atenção nas ruas que Simone nem conta as vezes em que foi abordada por alguém interessado em comprá-lo. “Já atendi pessoas na porta de casa, fora do horário, perguntando sobre o valor do carro estacionado em frente. No mercado, quantas vezes havia gente no estacionamento, aguardando minha saída, para fazer alguma proposta. Na semana passada, uma pessoa me ofereceu R$ 100 mil e, ante minha recusa, perguntou se eu trocava por uma fazenda”, disse.

Para Simone, o Fusca não tem preço. Ela nunca disse um valor qualquer, mesmo absurdo, por temer ficar sem o carro. O automóvel da família já recebeu uma pintura nova, há aproximadamente sete anos, mas com a tinta especial “Duco” apontada pelo saudoso pai.

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