CULTURA

Parteiras ajudaram mães de Santa Cruz ao longo de décadas

Até 1970, elas ainda eram importantes nos partos, especialmente na área rural

Parteiras ajudaram mães de Santa Cruz ao longo de décadas

MEMÓRIAS — Marilene Doná Ramos de castro mostra quadro da avó Maria, que foi parteira famosa

Publicado em: 08 de maio de 2021 às 05:20
Atualizado em: 11 de maio de 2021 às 15:52

Sérgio Fleury Moraes

Elas ainda existem em várias partes do mundo, especialmente em nações mais pobres. No Brasil, estas mulheres que ajudam crianças a nascer ainda são atuantes em regiões do Nordeste onde a presença do médico é mais difícil. São as parteiras, mulheres sempre respeitadas e que costumam exercer algum tipo de liderança em suas comunidades. Em Santa Cruz do Rio Pardo, inúmeras parteiras ainda são lembradas como aquelas que proporcionaram a milhares de mulheres o dom de serem mães.

A mais conhecida de todas talvez seja Anna Gaigher, uma alemã que morou em Santa Cruz na primeira metade do século passado e cuja memória ainda permanece nas lembranças de pessoas mais velhas. Anna era a “Donana”, personagem que fez história na cidade como parteira “com diploma”, conforme costumava anunciar na imprensa.

Anna não foi a primeira parteira, mas a verdade é que muitas informações se perderam na história. Sabe-se que a ex-escrava Inocência Maria da Conceição foi a mais requisitada parteira de Santa Cruz entre o final do século 19 e os primeiros anos do século 20. Os descendentes contam que era comum Inocência ser chamada e permanecer vários dias numa fazenda à espera da hora do parto.

Claro que, muitas vezes, a presença do médico era imprescindível, principalmente quando havia algum problema durante o parto. Segundo o historiador Celso Prado, Francisco de Paula de Abreu Sodré foi provavelmente um dos primeiros médicos a se declarar “parteiro”.

Formado em medicina no Rio de Janeiro em 1892, Sodré foi líder político em Santa Cruz na primeira década do século 20. Aliás, ele alcançou o grau de doutor ao apresentar a tese “Estudo Clínico da Placenta Prévia”, publicada pelo “Anuário Médico Brasileiro” de 1892. Ele foi o terceiro médico residente no município e manteve um consultório até 1907. Até hoje, Sodré é considerado o segundo “prefeito” de Santa Cruz (na verdade, o cargo na época era de intendente) e responsável direto pela vinda da ferrovia.

Nos registros do historiador Celso Prado constam, ainda, os nomes de Rosa Magdalena no início do século 20 e o da parteira “Dona Emma”, mulher de Tokugiro Tagima.

Mas a alemã Anna Gaigher é provavelmente a personagem mais lembrada do século passado. A artista plástica santa-cruzense Mariza Zacura, hoje residente na Bahia, chegou a esculpir uma “boneca” de Anna, inclusive com a tradicional maleta semelhante àquelas usadas pelos médicos. A escultura, que faz parte da série “meninas gordas” que Mariza começou a fazer quando ainda morava em Santa Cruz, está no ateliê da artista em Arraial D’Ajuda-BA.

Mariza, por sinal, se lembra da figura de Anna Gaigher. “Parece que ela veio da Alemanha especialmente para trabalhar como parteira. Quando eu era criança, apreciava quando ela subia pela minha rua com a sua inseparável bolsa. Minha mãe costumava se perguntar onde iria nascer mais uma criança. Por isso, minha escultura mostra a bolsa e crianças com as cabecinhas de fora”, disse a artista.

“Donana”, por sinal, fez o parto do irmão mais velho de Mariza. “Ele nasceu em casa, de parto normal, pesando 5,5 quilos”, contou.

Publicidade de Ana Gaigler no jornal "A Cidade" de Santa Cruz do Rio Pardo em 1926

 

A parteira atuou durante décadas em Santa Cruz do Rio Pardo. Em 1926, inclusive, Anna tinha um anúncio publicitário no jornal “A Cidade”, informando que era “parteira diplomada”.

Moradora de Santa Cruz do Rio Pardo, a aposentada Nadyr Pereira Gonzaga, surpreendentemente bem disposta no alto de seus respeitáveis 97 anos, conheceu Donana. Mais do que isto, foi a alemã quem fez cinco partos dos seis filhos de Nadyr. “Só meu último filho não veio pelas mãos dela, pois eu estava morando no Paraná”, contou.

Nadyr Pereira Gonzaga, 97, teve seis filhos, dos quais cinco foram partos feitos pela lendária “Donana”

A aposentada lembra que Donana foi uma mulher impecavelmente limpa com seus trajes brancos. “Era uma pessoa muito bonita e maravilhosa. Deve ter vindo da Alemanha muito nova, pois falava muito bem o português”, disse. A filha de Donana ajudava a mãe nos partos.

Segundo Nadyr, Donana sabia deixar a parturiente calma e confiante para ter o filho. “Num de meus partos, ela me contou que já havia ajudado mais de 1.000 crianças a vir ao mundo”. O filho Edmundo, por exemplo, tem hoje 77 anos e, portanto, nasceu em 1944, quando Donana, de acordo com Nadyr, aparentava ter cerca de 67 anos.

Anna Gaigher morava num casarão na esquina da antiga delegacia, na rua Euclides da Cunha. Nadyr conta que a parteira acompanhava a família durante vários dias. “Ela ia todos os dias dar banho na mulher e no bebê. Na primeira semana, era ela quem praticamente cuidava de tudo”, lembrou. Com o parto em casa, a aposentada lembra que não havia praticamente casos de infecção hospitalar.

Detalhes da história de “Donana” se perderam no tempo e não há registros sobre sua morte. Segundo o historiador Celso Prado, provavelmente ela se mudou da cidade. Sabe-se, porém, que ela enfrentou um processo judicial nos anos 1930, em que o Ministério Público questionou o seu diploma da Alemanha, que não teria registro no Brasil. Porém, continuou como parteira por pelo menos uma década, até que seu nome desapareceu de qualquer registro em Santa Cruz do Rio Pardo.

Mais recentemente, uma outra parteira também fez história. Foi a italiana Maria Cardim Doná, que chegou ao Brasil num navio de imigrantes em 1923. Casada com Adolfo Doná e mãe de seis filhos, dedicou sua vida a fazer partos, principalmente na zona rural. Maria costumava usar uma charrete “e um bom cavalo” para vencer com rapidez o percurso nas estradas de terra de Santa Cruz.

Escultura de ‘Donana’, feita pela artista plástica Mariza Zacura

Marilene Doná Ramos de Castro, 69, neta de Maria e residente em Santa Cruz do Rio Pardo, se lembra com carinho da avó e, inclusive, conta que a ajudava no atendimento. “Quando alguém chamava, eu buscava os cavalos e preparava a carroça. E na hora do parto, eu fervia os instrumentos e os panos necessários, além de acompanhar tudo”, disse.

Bancária aposentada, Marilene conta que a avó levava sempre uma bolsa de médico, com todos os instrumentos, inclusive “fórceps”, usado para “puxar” a força a criança que não estava na posição adequada durante o parto. Segundo ela, a italiana fez todos os partos na família e trouxe ao mundo centenas e centenas de crianças.

Italiana tradicional, Marilene disse que a avó gostava de reunir a família aos domingos com uma macarronada. “E adorava um vinho”, disse. Após um parto na zona rural, por exemplo, havia uma grande festa e invariavelmente a neta transportava a avó praticamente dormindo para casa. “Ela tinha algumas manias, como preferir conversar com homens. Minha avó dizia que as mulheres fuxicavam muito”, lembra, rindo.

Marilene disse que acompanhou a avó para realizar partos nos bairros rurais da Figueira, Caetê, Mombuca, Cachoeira e outros. “No começo, quando eu tinha dez anos, não entendia muito o que iria acontecer. Mas bastava ela ordenar que eu pegava os chales, preparava a charrete, os instrumentos e partia para mais um nascimento. Muitos foram assustadores, quando minha avó subia na barriga da mulher para virar a criança”, conta.

Se não conseguisse, Maria aconselhava a família a chamar o médico Valdomiro Ferreira Neves. Era a neta quem cortava o cordão umbilical, supervisionada pela parteira. “Acontecia de a gente chegar na propriedade às 19h e o bebê nascer somente na manhã do dia seguinte. Mesmo assim, a festa acontecia e o vinho rolava solto”, conta Marilene. “Hoje sei a quem puxei”, diz, rindo.

Maria Cardim Doná não cobrava nada pelos partos. Nos dias seguintes, porém, recebia muitos presentes em forma de leitoa, frutas ou verduras, como gratidão das famílias. Nos anos 1960, a parteira adoeceu e foi em busca de tratamento em São Paulo, no Hospital das Clínicas. Não resistiu. “Eu era criança e nunca aceitei porque seu corpo veio totalmente diferente. Estava muito magra. Durante muitos anos, eu disse que a nona estava viva”, disse Marilene.

 

* Colaborou: Toko Degaspari

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