CULTURA

Pascoalino: A hora e a vez de cada palavra

Pascoalino: A hora e a vez de cada palavra

Sexta, 17 de julho de 2020

A hora e a vez de cada palavra

Pascoalino S. Azords

Da equipe de colaboradores

A Ciência estima que a cada 98 minutos surja uma nova palavra na língua inglesa. Não são essas novas possibilidades de se dizer alguma coisa incompreensível que me assustam. Pelo contrário. O que me tranqüiliza o sono, o que me diz que sim, que é preciso fazer a barba e de vez em quando comprar uma meia nova é justamente essa precisão científica: 98 minutos! A Ciência é implacável: não arredonda para 100 nem deixa por 90 minutos — o tempo corrido de uma partida de futebol sem prorrogação. E, se a Ciência é assim mesmo tão precisa, podemos, enfim, dormir sossegados.

Se novas palavras surgem do nada, imagino que outras deixam de existir com a mesma naturalidade. Porque, caso contrário, seria necessário um armário para guardar o dicionário de cada língua. Não deve haver uma relação entre o nascimento e o sepultamento das palavras. Nenhuma palavra nova, por exemplo, fica torcendo para que uma palavra obsoleta morra. A língua é meio como a casa da mãe Joana, como a Terra — sempre cabe mais um. E assim, a língua só cresce a cada novo censo, a cada nova e exaustiva pesquisa para se fazer um novíssimo dicionário.

Uma palavra morre quando deixa de fazer sentido, ou de ter utilidade. Devia ser assim com as pessoas, mas, para cada um que consegue furar a fila ordinária temos dez que não querem por nada largar o osso. Nas igrejas e nas câmaras do parlamento isso é mais explícito. Dá gosto ver essa gente tão apegada à vida!

Palavras mortas. Boi carreiro, por exemplo, é uma palavra que nem esperou pela torcida contrária de internet, orkut ou youtube. Boi carreiro foi ficando para trás, numa curva do século XX, amontoada com uma pilha de ideologias e eletrodomésticos ultrapassados. Na manhã daquele 11 de setembro de 2001 já não restava um único boi carreiro para testemunhar a evolução do Homem, só internet, orkut, youtube, lan house...

Agora, vai tentar explicar para o seu neto o que era um boi carreiro. Não tem cabimento! Para a rapaziada, há muito que o boi já vem fatiado do mercado, ou moído do açougue. Um boi que só fazia puxar o carro chorão é uma coisa completamente absurda, como farmacêutico, alfaiate.

Açougue, que os argentinos sabiamente chamam de carniceria, é outra palavra que (como o Ronaldão) tá pedindo pra sair. E marchetaria, sapateiro, tinturaria, leiteiro, vaca mecânica, sabugueiro...

Palavras abstratas resistem mais ao tempo. Honestidade, por exemplo. Mesmo fora de moda há anos, honestidade sobrevive em todas as línguas porque não sai da boca dos desonestos. Três poderes dividem a tarefa.

Minha lista de palavras ameaçadas de extinção não é nada ecológica: prostituta, escritor, bancário, professor, babá, padre, escrutinador, ascensorista de elevador, juiz eleitoral, pescador, caráter...

Eu não queria, por nada, estar aqui daqui a 100 anos pra queimar a língua. Mas pensa bem. 

* Publicada originariamente em 21/06/2009 e reproduzida na edição impressa de 12 de julho de 2018

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