CULTURA

Uma paixão pelo cinema

Uma paixão pelo cinema

Publicado em: 22 de março de 2020 às 14:45
Atualizado em: 30 de março de 2021 às 16:03

Morador de Ipaussu tem um museu cinematográfico

em casa, com direito a uma tela com cortina automática


O aposentado possui vários projetores de cinema antigos



Sérgio Fleury Moraes

Da Reportagem Local

Quando assistiu ao filme “Cinema Paradiso”, a obra prima de Giuseppe Tornatore, o pernambucano Nilton Uchôa Cavalcanti chorou. Afinal, a história do menino que se encantava pela “sétima arte” era exatamente um retrato do aposentado. Nilton fez o mesmo pela vida, dormindo e trabalhando em cinemas do Nordeste e do Sudeste, recolhendo, inclusive, tiras dos filmes para vender nas manhãs de domingo, quando a molecada costumava trocar gibis ou figurinhas na frente do cinema. “Eu assisti a este filme mais umas quarenta vezes”, conta Nilton, hoje morador em Ipaussu e aposentado.

Aos 77 anos, Cavalcanti não vive apenas das lembranças. Ele transformou sua casa num verdadeiro museu cinematográfico, inclusive com projetores antigos, alguns da época do cinema mudo. Nas paredes, cartazes de filmes, principalmente os mais antigos com Errol Flynn, Clark Gable, Rock Hudson, Charlton Heston e outros. Ele guarda cenas de filmes históricos na película original, como “Spartacus”, de Stanley Kubrick e com Kirk Douglas no elenco. Mas possui mais, muito mais.



Nilton Uchôa Cavalcanti, morador de Ipaussu, literalmente respira cinema



Nilton Cavalcanti tem uma história rica. Nascido em Águas Belas-PE, foi criado em Caruaru. A família era numerosa e ele conta ter um parentesco com o ex-deputado carioca Tenório Cavalcanti, que é alagoano. O lendário político inspirou o filme “O Homem da Capa Preta”, com José Wiker no papel principal, e costumava andar com a inseparável “Lurdinha” debaixo das vestes. “Lurdinha” era como chamava sua submetralhadora.

Um dia, uma tragédia abateu sobre Nilton e seus irmãos. A mãe morreu e o pai — “irresponsável”, segundo ele — resolveu dar todos os filhos em adoção. Nilton não aceitou e simplesmente fugiu. Virou um menino de rua durante anos. Tinha apenas dez anos e nunca havia frequentado uma escola.

Foi parar em Capendi-PE, onde dormia na estação de trem. Um dia, pediu emprego num cinema, dizendo que podia trocar os letreiros e limpar os cômodos. “Eu trabalhei algum tempo em troca de um pão doce e um caldo de cana na hora do almoço. Foi assim que fui aprendendo a sobreviver”, contou.

Ganhou tanta confiança que recebeu a chave do prédio para trabalhar quando o responsável não estava. Foi aí que, escondido, deixou as calçadas e passou a dormir perto da telona. Claro que precisava acordar cedinho, antes da chegada dos funcionários. Nunca perdeu a hora.

Nilton Uchôa Cavalcanti trabalhou nos estúdios de Amácio Mazzaropi



Sala da residência possui um cinema adaptado



Com os letreiros, começou a aprender a ler e escrever. Quando conseguiu juntar um dinheiro, partiu para Recife. “Em todas as cidades por onde passava, eu sempre procurava o cinema. Meu negócio era mesmo este”, lembra.

Mas o grande centro nordestino foi uma ilusão. Aos 14 anos, passava fome e voltou para as ruas. Um dia, chegou a desmaiar na rua e quase foi atropelado. Não comia nada havia três dias. Foi aí que um americano se comoveu com o garoto e entregou a ele uma nota de 500 mil réis. “Eu nunca tinha visto uma nota daquela”, disse. A primeira reação foi se alimentar. “Comi um prato enorme de macaxeira e ainda repeti”, lembra.

Com o dinheiro que sobrou, comprou uma roupa decente e partiu para a rodoviária. Mostrou no guichê o dinheiro e perguntou se dava para viajar até o ponto final do ônibus mais bonito. “Eu nem sabia o destino.

Parou em Caruaru. E, claro, foi procurar um cinema. Antes, porém, foi trabalhar num bar e conseguiu um local para dormir. “Era um banquinho do salão de sinuca. Dormi quatro anos naquele banco”, disse.

Já tinha quase 18 anos quando fazia letreiros para um cinema de Caruaru. Uma pessoa o reconheceu pelo nome e avisou que um dos irmãos estava em São Paulo. Trocou correspondência e, pouco tempo depois, estava na capital do Estado mais rico do Brasil.

Depois de trabalhar com Mazzaropi em Taubaté (leia abaixo), Nilton ficou 27 anos no Cine Banco do Brasil. Já com família, uma das filhas também se casou e veio morar em Ipaussu. Numa das visitas, gostou da cidade. “É calma, lembra minha terra em Pernambuco”, pensou. Já aposentado, decidiu ficar.

RELÍQUIA — Nilton mostra um projetor antigo — e ele tem vários, inclusive películas originais dos filmes



Museu do cinema

Na residência em Ipaussu, Nilton resolveu não apenas viver de memórias, mas encher a casa com peças e filmies que fizeram parte de sua vida. Hoje, a moradia é praticamente um museu cinematográfico.

Numa sala especial, por exemplo, há uma réplica de tela de cinema em miniatura. Ao comando de botões e no apagar das luzes, soa uma música e, automaticamente, as cortinas se abrem para o início de um filme. Não é uma TV, mas uma projeção que ele construiu. Na semana passada, durante a entrevista, a sessão foi “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin.

O “museu” particular tem, ainda, antigos projetores — inclusive um da época do cinema mudo —, películas e mais de 7.000 títulos em DVD. Ele busca tudo através de contatos com colecionadores.

Em algumas ocasiões, teve sorte. Ele conseguiu comprar três rolos de filmes originais de Carlos Miranda, o lendário “Vigilante Rodoviário”, astro do primeiro seriado da televisão filmado em película de cinema.

Há cartazes de filmes espalhados pela casa, bonecos de personagens de filmes antigos — como os de “Os Dez Mandamentos”. O interessante é que cada peça tem uma história, que é apaixonadamente contada por Nilton Uchôa Cavalcanti, que também virou artista plástico e mágico. Mas, como num filme, fica para a segunda parte. 




PRESENTE — Nilton ganhou chapéu do astro de “O Cangaceiro”, de 1953



‘O Mazzaropi foi

meu melhor patrão’

Nilton Uchôa Cavalcanti trabalhou nos estúdios de Amácio Mazzaropi, até hoje cultuado no cinema e considerado um dos maiores atores cômicos da história. O ator e produtor montou um estúdio cinematográfico numa fazenda em Taubaté, que era o cenário de seus principais filmes. Para se ter uma ideia de sua fama, em Santa Cruz do Rio Pardo os filmes de Mazzaropi costumavam provocar filas de dois quarteirões no antigo Cine Pedutti.

Nilton era responsável pela montagem de cenários. “Ele sempre foi humilde. Eu conversava toda hora com ele, que era muito amável”, conta. Ficou quatro anos no emprego, mas aprendeu, inclusive, a projetar filmes. Na verdade, Nilton se especializou até em mecânica de projetores.

Conheceu muitos artistas do cinema, inclusive Milton Ribeiro, o ator de “O Cangaceiro”, filme de 1953 de Lima Barreto que venceu o Festival Internacional de Cannes e ficou em cartaz em 80 países — cinco anos na França.

Nilton, aliás, ganhou de Ribeiro um chapéu de cangaceiro, que, orgulhosamente, está pendurado na sala de cinema de sua casa. 

A caixa de papelão, ainda intacta, foi um projetor construído na infância





  • Publicado na edição impressa de 15/03/2020


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