CULTURA

Vasco Debritto sem censura: músico teve músicas vetadas e conheceu Tom Jobim

Músico santa-cruzense lembra passagens históricas e pretende voltar ao cenário artístico

Vasco Debritto sem censura: músico teve músicas vetadas e conheceu Tom Jobim

Vasco Debritto toca na sala de sua casa após entrevista ao jornal (Foto: André Fleury)

Publicado em: 27 de março de 2021 às 05:28
Atualizado em: 30 de março de 2021 às 09:59

André Fleury Moraes

Existem dois Vascos. O primeiro é nômade, gosta de ir ao botequim para ouvir samba, jazz e MPB. E além de tudo mantém uma alma libertária — não gosta de ficar preso a paradigmas, estereótipos e não raro solta um palavrão.

O segundo é romântico, idealista e extremamente musical. Os dois, no entanto, refletem um homem boêmio, que curte um bom uísque e aprecia uma vida cujas regras são ditadas por ele mesmo. Eles refletem a mesma pessoa e não raro se misturam. O primeiro é Vasco de Britto; o outro, Vasco Debritto, remete ao nome artístico adotado pelo santa-cruzense desde a juventude.

Vasco nasceu em Santa Cruz do Rio Pardo em 1951. Tímido na infância, despejava o sentimento rebelde nas letras que já escrevia. Se interessou por instrumentos musicais ainda jovem, aos 13 anos, e se apresentou no finado “Clube dos 20” ainda adolescente. Mas sabia que seu lugar ao Sol, ao menos àquela época, estava em outros ares.

Formou-se no Leônidas do Amaral Vieira e, ainda confuso sobre o futuro, decidiu estudar Engenharia em São Paulo. “Foi uma lástima”, lembra, rindo. O curso, que normalmente dura cinco anos, tomou oito da vida de Vasco. “Pelo menos terminei”, diz.

Mas os anos na capital foram frutíferos. Músico por vocação, Vasco foi contratado para apresentar um programa na finada TV Tupi de Assis Chateaubriand. Era o “Almoço com as estrelas”. Quando a Tupi o recepcionou, Vasco já estava no terceiro ano de faculdade.

Gostou tanto da área musical que transferiu o curso para o Rio de Janeiro, capital da ‘Bossa Nova’ e onde moravam praticamente todos os artistas da época, desde Chico Buarque até Tom Jobim. O ano era 1973. Ele ainda estudava pela manhã, mas muitas vezes virava madrugadas após uma longa noitada.

O Brasil ainda vivia sob os horrores da ditadura militar, que instalou censores nas redações de jornais e vetava livremente letras que o regime considerava subversivas. Vasco não escapou disso. “Tinha que mandar ao ilustríssimo senhor censor. Aquilo era um saco”, reclama.

O artista santa-cruzense Vasco Debritto

Certa vez, mandou a letra de “Rendez Vous” para o departamento de censura da ditadura. O papel voltou dias depois à casa de Vasco. Embaixo, um carimbo preto estampava: “vetado”. Vasco respeitou a decisão, já que poderia ser até torturado se não o fizesse. Rebelde por natureza, porém, ainda tocou a música uma vez durante o regime.

Mas há outros episódios. No Rio de Janeiro, compareceu e se apresentou num evento pela anistia. A polícia chegou e dispersou geral. Vasco foi parar na sede do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) fluminense, onde permaneceu algumas horas e foi liberado.

Como o Movimento Estudantil era muito militante na época, ele tinha amigos da faculdade ligados a grupos considerados subversivos pela ditadura. Um deles era a ALN (Aliança Nacional Libertadora), movimento de luta armada contra o regime.

Em 1970, Vasco levava no porta-malas de um Fusca uma carga abarrotada de fuzis que seriam entregues à Aliança. Na rodovia para São Paulo, o carro foi parado pelo Exército. Todos cabeludos e barbudos — justamente o estereótipo indesejado pela ditadura —, e alegaram que iam a São Paulo “para namorar”. Ninguém inspecionou o veículo, e todos aqueles jovens foram liberados. “Foi um alívio, mas ainda tiramos sarro dos militares”, conta.

Vasco não citou nomes, mas adiantou que um destes colegas estudava na USP, era santa-cruzense e muito conhecido na cidade. A carga foi entregue em São Paulo num lugar hostil, segundo lembra o músico.

Vasco nunca tocou em bares. Tanto que seu primeiro show no Rio foi no Museu de Arte Moderna e durou uma tarde inteira. Mas era nos botequins que encontrava não apenas sua inspiração para escrever, mas também seus maiores ídolos. “Era o lugar onde eu tinha que ficar”, afirma.

Foi assim, por exemplo, quando estava em um desses botequins da capital carioca e conheceu Tom Jobim. “Tom, vamos tomar uma juntos”, disse Vasco, meio envergonhado. “Não. Eu estou indo lá para a casa daqueles olhos azuis”, respondeu Jobim. Era uma referência a Chico Buarque, que também morava no Rio.

“Os botequins eram locais sujos, mas eram os melhores”, explica. Ainda não havia leis contra o tabaco, e o interior dos bares era regado a fumaça de cigarro. “Fazia-se música à vontade enquanto não chegassem os militares”, explica.

Vasco também conheceu Chico Buarque, mas não no Rio de Janeiro. Foi em São Paulo, anos antes, numa rua perpendicular à faculdade Mackenzie, e claro que num botequim também. “Meus amigos sabiam que eu admirava Chico e prepararam uma surpresa com o empresário dele”, relata.

“Fecharam o bar e pediram para todos sair. Só fiquei eu. Pensei que estava ferrado, que a polícia iria me pegar”. Foi quando entrou Chico Buarque. Os dois trocaram olhares, mas sem dizer absolutamente nada. Eles tomavam vinho com melancia — bebida que Vasco sequer conhecia.    

“E aí?”, adiantou-se Vasco. O cumprimento foi recíproco, e o santa-cruzense se apresentou. “Sou compositor, tenho umas canções, queria fazer algo com você”. “Vamos ver o que a gente faz”, emendou Buarque. Os dois tocaram juntos por meses, mas a canção não foi para frente por falta de patrocínio.

Além de artistas, os botequins também eram frequentados em grande parte por jornalistas. Ao lado de Ivan Lessa, Aldir Blanc e outros figurões, Vasco chegou a ser entrevistado pelo Pasquim, maior referência da imprensa alternativa da época, numa reportagem intitulada “Antologia dos Letristas Brasileiros”.

Vasco conheceu a primeira mulher, Heloísa, no Rio de Janeiro, num relacionamento que durou quatro anos. Depois, casou-se com a segunda mulher, Tereza, com quem teve dois filhos. Numa tarde em Santa Cruz, ao lado da esposa ainda grávida, Vasco tinha preocupações sobre como pagaria o parto. No quintal de casa, nervoso, recebeu uma ligação. Surpreendeu-se quando soube que no outro lado da linha estava a embaixada do Japão. “Eles anunciaram que um hotel me contratara para tocar”, diz.

Músicas brasileiras, segundo Vasco, sempre foram muito bem aceitas no Japão. Após o período no hotel, abriu sua própria gravadora também no Japão. Curiosamente, foi ele quem inaugurou Tom Jobim no país asiático. Ao todo, Vasco lançou 40 títulos de músicos com sua própria gravadora.

Vendeu milhares de discos autorais — o mais importante foi Visions, que foi comprado por 8 mil pessoas. “O período no Japão foi excelente”, lembra. Já separado da mulher no Brasil, casou-se com uma japonesa, com quem se comunicava em inglês. O relacionamento terminou na primeira década dos anos 2000, quando ele voltou ao Brasil.

Hoje, Vasco segue em Santa Cruz do Rio Pardo e já se recuperou de um AVC que sofreu em 2018 e voltou a tocar. Pretende voltar ao cenário musical. Não dá detalhes, mas adianta que já tem projetos em andamento. Afinal, o Vasco de Britto não quer se separar, jamais, do Vasco Debritto. 

Vasco antes de show no Rio de Janeiro
No festival de Música Brasileira no Japão

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