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Américo Pitol, o benemérito que foi vice-prefeito em duas gestões

Comerciante que ajudava instituições e era muito religioso, chegou a disputar a prefeitura de Santa Cruz em 1959, depois de ser vice por oito anos consecutivos

Américo Pitol, o benemérito que foi vice-prefeito em duas gestões

Américo discursa ao lado de Lúcio na campanha vitorisa de 1955, quando foi novamente eleito vice

Publicado em: 28 de agosto de 2021 às 03:23
Atualizado em: 28 de agosto de 2021 às 04:22

Sérgio Fleury Moraes
Miguel Abeche

Um dos mais importantes pilares de sustentação do grupo de Leônidas Camarinha, o comerciante Américo Pitol foi o único a ser eleito vice-prefeito de Santa Cruz do Rio Pardo durante dois mandatos consecutivos numa época em que não havia reeleição para o chefe do executivo. Dono de um armazém de “secos e molhados”, Américo era um benemérito de várias entidades filantrópicas, atuante na igreja católica e vicentino. Claro que o convite para ingressar na política não demorou.

Américo Pitol nasceu em Ribeirão Preto em 1909, cidade onde morou com os pais Vergílio e Celidônia até 1921. Ele cursou parte de seus estudos num colégio religioso. Anos depois, a família mudou-se para Santa Cruz do Rio Pardo, quando ficou cinco anos trabalhando na área rural.

Quando se casou com Rosa Morghetti, Américo virou comerciante, primeiro numa loja de tecidos e, depois, no comando de um bem sucedido armazém de secos e molhados. O estabelecimento funcionou muitos anos na principal rua comercial de Santa Cruz, numa das privilegiadas quadras do atual “calçadão”. Vendia de tudo, desde grãos a granel a ferramentas agrícolas.

O armazém fez de Pitol um homem conhecido. Mas o ingresso dele em campanhas sociais transformou Américo num cidadão respeitado e admirado em Santa Cruz do Rio Pardo. Em 1938, por exemplo, foi iniciativa dele a organização de uma delegação da Paróquia de São Sebastião que viajou a São Paulo para buscar as primeiras religiosas da congregação “Companhia de Maria”. Era o início do famoso colégio da ordem que funcionaria durante décadas na cidade. Américo foi o chefe da delegação.

O comerciante também foi provedor da Santa Casa de Misericórdia, hospital que funcionava em um terreno pequeno da atual rua Cyro de Mello Camarinha. Américo Pitol foi o responsável por campanhas financeiras que culminaram em recursos para a compra de todo o quarteirão, permitindo a expansão do hospital que hoje é referência regional.

CAMPANHA — Pitol durante campanha eleitoral de 1959, como candidato a prefeito; entre outros, ele está ao lado de Bernardino Lacerda (Arquivo / DEBATE)

Católico fervoroso, foi o primeiro presidente da Congregação Mariana, movimento sociorreligioso que, sob o comando de Pitol, recrutou mais de 500 jovens de Santa Cruz do Rio Pardo.

A partir dos anos 1950, quando já era político, Américo Pitol também foi um dos dirigentes do “Lar São Vicente de Paulo”, junto com as irmãs dominicanas, de 1951 até 1976, ano de sua morte. Era considerado um “pai” para os idosos residentes no asilo, tanto que costumava visitá-los todos os dias.

Além disso, o comerciante participou da campanha que resultou na construção do prédio da “Maternidade Maria Perpétua Piedade Gonçalves”, atual sede da secretaria municipal de Saúde. Como se não bastasse, ajudou a construir o “Lar Fermino Magnani”.

Com este currículo impecável, era óbvio que Américo Pitol seria convocado pelo recém-eleito deputado Leônidas Camarinha para ingressar na política. Era o ano de 1947 e, pela primeira vez desde o fim do Estado Novo de Getúlio Vargas, haveria eleições diretas e livres para prefeito, vice e vereadores.

Américo era muito amigo de “Lulu” Camarinha e não recusou o convite. O País respirava ares democráticos, com a eleição direta do presidente Eurico Gaspar Dutra dois anos antes e a vitória do governador Ademar de Barros, junto com a eleição de Leônidas como deputado, em janeiro de 1947.

Pitol integra a chapa de vereadores da coligação do PSD-PTB, liderada por Lulu Camarinha, que elegeu como prefeito Lúcio Casanova — naquela eleição não havia o cargo de vice-prefeito. Américo, por sinal, foi o segundo candidato mais votado da coligação — o primeiro foi Ângelo Aloe.

Na Câmara, atuou para fortalecer as instituições assistenciais de Santa Cruz e foi o autor da lei que instituiu o “Dia da Cidade” como sendo 20 de janeiro, quando os católicos comemoram o dia de São Sebastião, considerado o padroeiro do município.

Pitol participa de evento político em 1959, junto com Lulu Camarinha (à esquerda); à direita aparece José João Queiroz, o ‘Zezo’

Quando Lúcio terminou seu mandato, o candidato para sucedê-lo nas eleições de 1951 já havia sido escolhido por Leônidas, o grande chefe político de Santa Cruz naqueles anos. Era o advogado Cyro de Mello Camarinha. O deputado, porém, fez questão que o vice da chapa fosse seu amigo Américo Pitol.

O adversário era Filadelpho França Aranha, da coligação UDN-PTB, curiosamente o concunhado do governador Lucas Nogueira Garcez — ambos casados com duas irmãs. Mas Lucas apoiou Cyro e, para não criar constrangimentos, evitou fazer campanha para o advogado apoiado por Lulu Camarinha. No entanto, o ex-governador Ademar de Barros, responsável direto pela eleição de Lucas Nogueira Garcez meses antes, esteve na cidade e subiu no palanque de Camarinha.

Cyro venceu com 3.433 votos, enquanto seu vice Américo Pitol conquistou 3.402 votos. Naquela época, o eleitor votava separadamente para todos os cargos do Executivo — prefeito, governador e presidente. A diferença na votação entre Cyro e Pitol é explicada por cédulas rasuradas ou votos errados. Pela oposição, Filadelpho recebeu 2.402 votos e seu vice Lindolpho — avô do ex-prefeito Otacílio Parras — teve 2.385 votos.

A gestão de Cyro Camarinha teve a presença constante do vice Américo Pitol. Foi uma administração voltada para a infraestrutura, como a expansão da rede de esgoto, a criação do aeroporto de Santa Cruz e a construção da ponte sobre o rio Pardo que liga o centro ao bairro da Estação.

Apesar de somente a reeleição do vice ser permitida pela legislação dos anos 1950, o nome de Américo Pitol surge como forte para disputar a eleição seguinte, de 1955. No entanto, Lúcio Casanova se impôs pela sua enorme popularidade como farmacêutico e por ter sido prefeito. Todos os correligionários do deputado Camarinha, porém, exigiram que Pitol fosse novamente o candidato a vice. E mais: que na eleição seguinte o comerciante fosse o indicado para disputar a prefeitura.

Nas eleições de 1955, o adversário era o advogado Omar Ferreira (UDN-PDC) e, portanto, o quadro eleitoral repetia o embate de 1947, com os mesmos candidatos disputando a prefeitura.

Entretanto, também repetiu-se o resultado. Lúcio venceu com 3.851 votos (56%), contra 2.910 de Omar Ferreira (42%). Américo Pitol foi eleito vice-prefeito com 3.849 votos, derrotando o candidato da UDN, Jiácomo Castaldin, que recebeu 2.885 votos. A diferença entre o prefeito eleito e seu vice foi de surpreendentes dois votos.

MOMENTOS — Na praça principal, Ademar de Barros participa de comício da chapa Cyro e Pitol em 1951

Em 1958, entretanto, o grupo de Leônidas Camarinha deu sinais de rompimento. Primeiro, o prefeito Lúcio pediu ao deputado que interferisse junto ao governador Jânio Quadros para nomear sua filha na rede estadual de ensino. Lulu, porém, ou ignorou o pedido ou não o conseguiu. Mas Lúcio pediu uma audiência com Jânio e o governador fez a nomeação.

Apesar do incidente, o prefeito ainda apoiou Lulu nas eleições estaduais de 3 de outubro de 1958, mas sem muito esforço. Foi a última vez em que ambos estiveram juntos.

Para o governo de São Paulo, Lúcio apoiou Carvalho Pinto, candidato de Jânio Quadros, enquanto Camarinha fez campanha por Ademar de Barros. O rompimento definitivo aconteceu na apuração dos votos da eleição estadual de 1958, no saguão da escola “Sinharinha Camarinha”, que ficava no prédio da antiga Delegacia de Ensino de Santa Cruz.

O próprio Lúcio Casanova contou este episódio ao DEBATE numa de suas últimas entrevistas, concedida em maio de 1984. “Na hora do almoço, deixei o prédio para evitar certas encrencas que sempre acontecem em eleições. Foi quando o Cristóvão Nelli pediu um distintivo do Carvalho Pinto, que era um pintinho. Eu brinquei, dizendo que naquela altura o distintivo estava valendo muito dinheiro. Nisso, o Alberto Dias se aproximou e ironizou, perguntando se eu não queria um distintivo da UDN. Começamos, então, a discutir, com palavrões e ofensas”, contou o ex-prefeito que seria deputado estadual anos depois.

A posse de Lúcio Casanova como prefeito em 1947, com Pitol na escada como vereador eleito (Arquivo / Maria Pitol)

Segundo Lúcio, Lulu Camarinha percebeu a briga e puxou Alberto Dias pelo braço. “Um de nossos amigos disse: ‘Larga mão desta gente. Nós não precisamos da ajuda deles para ganhar as eleições’. Foi aí que eu revolvi: já que eles acharam ruim termos apoiado o Carvalho Pinto, vamos romper de vez”, contou Lúcio na entrevista.

Ainda em 1958, houve uma tentativa de reconciliação, mas Camarinha não aceitou a proposta de Lúcio, que era indicar o nome do vice e fazer uma composição na chapa de vereadores. O rompimento histórico levou Lúcio e vários políticos na direção da UDN de Alziro Souza Santos, José Osires “Biju” Piedade e outros.

Na verdade, Lúcio já sentia ter um potencial eleitoral para voos mais altos, como uma eventual candidatura a deputado. Camarinha, neste caso, seria o grande obstáculo e este também foi um motivo para o rompimento entre os dois.

No xadrez político, a UDN não percebeu que tinha chances reais de conquistar a prefeitura pela primeira vez, já que Lúcio poderia lançar um candidato próprio por outro partido. No entanto, os udenistas preferiram aceitar um acordo eleitoral a uma disputa com três candidatos, lançando um nome do partido como vice na chapa — José Osiris Piedade. O vereador Onofre Rosa de Oliveira seria o candidato a prefeito pela oposição.

Como candidato a vice, “Biju” era muito forte, pois havia concorrido a uma vaga de deputado estadual um ano antes e conquistado a sexta suplência da UDN na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Já no grupo governista, Lulu cumpriu o acordo de 1955 e Américo Pitol foi finalmente lançado como candidato a prefeito de Santa Cruz do Rio Pardo em 1959. O escolhido para vice foi Cyro de Mello Camarinha, com uma curiosa inversão da chapa vitoriosa de 1951.

Lúcio Casanova (de chapéu) comemora nas ruas, abraçado a correligionários e ao prefeito Cyro Camarinha, a vitória eleitoral de 1955; à frente, de terno escuro, o vice-prefeito eleito Américo Pitol

No início da campanha, a cidade comentava que finalmente chegara a vez de Américo Pitol. Figura respeitada, vice-prefeito duas vezes consecutivas, atuante nas instituições filantrópicas e apoiado pela força do deputado Leônidas Camarinha, foi considerado favorito. O slogan eleitoral era “o povo na prefeitura”.

Como ainda não havia a histórica disputa entre “vermelhos” e “azuis”, Pitol fez campanha usando as cores amarelo e azul. Havia comitês eleitorais dos dois grupos no centro e nos bairros da cidade.

No entanto, a coligação UDN-PDC-PTN fez uma campanha milionária, sem economizar recursos. Américo Pitol tinha a chance de se tornar prefeito pela primeira vez, mas não contava com uma eleição tão tensa, já que o rompimento no grupo de Camarinha injetou ódio na política de Santa Cruz. Mesmo assim, o comerciante evitava atacar os adversários nos comícios.

Porém, ninguém conseguiu evitar o baixo nível. Num dos comícios, o vereador Reynaldo Zanoni, conhecido como “Tufão”, um dos ex-aliados de Camarinha que seguiu Lúcio no rompimento, chegou a satirizar a situação em tom exaltado: “Povo de Santa Cruz do Rio Pardo, façam como eu: joguem o cabresto fora”.

Pitol (na frente da porta, de terno claro) participa de reunião política do grupo de Lulu Camarinha

A resposta veio no dia seguinte, no comício de Pitol, quando o candidato a vice Cyro Camarinha discursou: “Cuidado, povo de Santa Cruz. Tem um burro chucro perdido por aí”.

Depois de uma campanha acirrada, cheia de acusações de ambas as partes, o eleitorado foi às urnas no dia 4 de outubro de 1959. A apuração começou no dia 5, debaixo de chuva e com os resultados transmitidos ao vivo pela rádio Difusora, a antiga ZYQ-8. Nos microfones, a surpresa: conforme as urnas iam sendo abertas, o candidato Onofre Rosa de Oliveira vencia, se distanciando de Américo cada vez mais.

Para vice, José Osiris Piedade também vencia Cyro de Mello Camarinha por uma larga margem de votos. Somente com a apuração das urnas dos distritos de Espírito Santo do Turvo e Caporanga, a diferença diminuiu, mas não o suficiente para tirar a vitória de Onofre Rosa.

Pela primeira vez na história, o grupo de Leônidas Camarinha era derrotado. Onofre conquistou 5.298 votos (55%), enquanto Américo Pitol obteve 3.890 (42%). Para vice-prefeito, José Osiris recebeu 4.997 votos e venceu Cyro Camarinha, que ficou com 4.011 votos.

A matemática foi simples. A união de Lúcio Casanova com a UDN determinou a diferença, já que o adversário a ser batido não foi propriamente Américo Pitol, mas o líder Leônidas Camarinha. A transferência de votos estava clara na soma de vários candidatos a vereador que seguiram Lúcio no rompimento com Lulu. Foi o caso de Anísio Zacura, Elídio Crivelli, Paulo Machado Ramos e outros.

A VOLTA DE OMAR  Derrotado duas vezes por Lúcio Casanova, o advogado Omar Ferreira deixou Santa Cruz em 1956. Em 1959, porém, com Lúcio rompido com Camarinha e aliado à UDN, Omar voltou à cidade para participar do comício de encerramento da campanha de Onofre. O abraço de Omar no antigo adversário pesou a favor da oposição.

Eram votos tradicionais de Camarinha que migraram para a oposição. Além disso, a campanha de Onofre Rosa teve o cuidado de não citar diretamente a UDN na campanha, afirmando que Lúcio e seus correligionários não tinham mais espaço no grupo do deputado estadual. Leônidas, por sinal, também sofria um desgaste natural após mais de 20 anos comandando a política de Santa Cruz.

Um outro problema foi Lulu ter apoiado Ademar de Barros para o governo do Estado no ano anterior, enquanto Lúcio fez campanha pelo vitorioso Carvalho Pinto. Assim, Camarinha perdeu prestígio em São Paulo, enquanto seus correligionários em Santa Cruz do Rio Pardo que ocupavam cargos comissionados foram demitidos pelo novo governador.

Foi a última participação de Américo Pitol em eleições. O homem humano, extremamente caridoso e que se preocupava com crianças ou famílias carentes, abandonou a política e passou a se dedicar somente às instituições.

Américo Pitol morreu em Santa Cruz em fevereiro de 1976, aos 66 anos. Em sua homenagem, uma travessa localizada perto da Sabesp recebeu o nome do comerciante. 

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