REGIONAL

Perder um amigo

Coluna de Henrique Perazzi de Aquino

Perder um amigo

Publicado em: 15 de janeiro de 2022 às 05:22
Atualizado em: 15 de janeiro de 2022 às 05:28

Primeiro, antes de tudo, posto a letra de Aldir Blanc e Maurício Tapajós, para algo bem com sua cara, poema escrito numa mesa, algumas décadas atrás e com este título: “PERDER UM AMIGO - Perder um amigo/ Morrer pelos bares/ Pifar em New York/ Penar em Pilares./ Perder um amigo/ Errar a tacada/ Sentir comichão/ Na perna amputada. /Perder um amigo/ Mudar pra bem longe/ Levar vida afora/ O tombo do bonde./ Perder um amigo/ É a última gota/ Se o cara duvida/ Que a vida é marota/ Perder um amigo/ Perder o sentido/ Perder a visão/ As mãos, os ouvidos./ Perder um amigo/ Perder o encontro/ Marcado e marcar-se/ Com a perda do espelho/ Nos olhos do amigo/ Aonde melhor/ Conheci minha face”.

O que entristece mais quando alguém se vai, como neste momento, conhecido professor daqui de Bauru, militante social de uma vida inteira, PT e PSTU, Almir Ribeiro, 62 anos. Exatamente a minha idade. Junto tudo e tento escrever algo, num momento em que talvez saia algo disforme, fora do tom, azedo ou mesmo, sem sal. Ando angustiado e os motivos são mais do que evidentes. Tantas perdas e tanta imbecilidade, gente desdizendo da Ciência para continuar seguindo alguém totalmente desajustado, fora do tom, miliciano e criminoso. Chegamos a este ponto neste insólito país. Perdemos ao longo dos últimos anos a capacidade de reagir, ir pras ruas protestar e botar pra quebrar. Este que ontem se foi, era de uma geração que fazia e acontecia. Sem medo de colocar a cara a tapa, enfrentou tudo e todos, sem se vergar.

 

O entristecer maior é quando olhamos para os lados e diante de gente como ele partindo, mesmo muitos na lida, mas as peças de reposição parece não ser mais tão impetuosas e envolventes, arrebatadoras como dantes. Ou os tempos são outros ou estamos cada vez mais bundas moles. Não desmereço uma parcela da juventude hoje lendo muito, porém, militando menos. Não dá para fazer revolução sem a existência de uma base sólida, uma teoria por detrás de tudo. Poucos se dão ao luxo de ler, ir em busca das referências antes de abraçar as causas. Almir leu a vida inteira e conhecia como poucos todos os movimentos revolucionários mundo afora. Olho para os lados e não vejo mais gente deste mesmo quilate na lida e luta. Pioramos.

Meu orgulho – e também deste que se foi – é ter conseguido, ao menos, algo a me encher de orgulho. Meu filho hoje lê mais do que eu, muito mais e discute de igual para igual teorias, desde as marxistas, darwinistas, trotskistas, revolução francesa, russa de 1917, como nossas guerras, decepções e avanços. Tenho é muita dificuldade em acompanha-lo no debate. Ou seja, ele por ser assim, vai sofrer muito mais neste mundo onde ser indiferente parece ser um grande negócio. Almir não conseguiria viver indiferente, nem eu, muito menos nossos filhos. Quer orgulho maior que este? Envelheci, sei que o mundo avançou em muitos aspectos mas em outros regrediu e hoje a dominação se faz pelo medo, uma intimidação calando tudo e “quase” todos. Quando vejo ainda gente discutindo em voz alta que o “comunismo” é o pior dos mundos, sem nenhum conhecimento do que isso venha a ser, olho para trás, o que já fomos ou ao menos tentamos ser e me prostro, quase resignado, triste, pois ando cada dia mais cansado, poucas esperanças. Buscando forças, um “energético” dos bons.

Não tivemos nem força suficiente para vergar esse presidente hoje ainda no poder e depois de tanta malversação. Almir se foi entristecido por dentro, militando e tentando até o último instante formar, mostrar, propor, instigar, sugerir, confrontar... Eu farei o mesmo, até meu último suspiro e sei, meu filho fará o mesmo, mas nem sei se teremos força para impor uma vitória popular, onde o ser humano seja o artífice da construção de um novo mundo. A luta de uma vida inteira, lendo e buscando formas de vergar os perversos, os que danam com nossas vidas é tarefa sem fim. Almir foi mais aguerrido que eu. Estava mais preparado, conseguiu mostrar isso para mais pessoas do que consigo fazer. Precisamos para mudar este mundo, de muito mais gente assim, sem medo de nunca esmorecer. Eu não pretendo fazê-lo, mas aos 61, o corpo dói, a incontinência retarda meus passos, mas na caminhada sei, não existe trégua. Sinto o baque, mas não existe como esmorecer e entregar os pontos. Se estou em busca de um país melhor, diferente, muito mais justo, soberano, tenho que, mesmo na adversidade, “levantar a cabeça, sacudir a poeira e dar a volta por cima”.

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