Como Pedro Queiroz ‘salvou’ uma foto que foi capa do jornal

No início dos anos 1980, Queiroz com Maluf e o ministro Mário Andreazza

Em 1988, jornalista ficou ‘preso’ na casa de Joaquim Severino

 

Na trajetória de quase 43 anos do DEBATE, é difícil um político gostar do jornal. Geralmente, elogia quando está na oposição, mas muda de postura quando assume um cargo público e fica exposto às críticas. Isto aconteceu com praticamente todos os prefeitos a partir de 1977, quando surgiu o jornal. E foi assim com Joaquim Severino Martins, considerado durante muitos anos o último “cacique” político de Santa Cruz do Rio Pardo. Mesmo fora da prefeitura, era ele quem dominava o cenário político da cidade.

Na verdade, descobriu-se depois, Severino nunca foi rancoroso. Porém, havia uma ala “radical” que orbitava em torno do líder que detestava imprensa livre. Pedro Queiroz estava na ala mais democrática.

Em 1988, quando disputou a prefeitura pela terceira vez — e amargou sua segunda derrota —, Joaquim já havia perdido parte de seu prestígio político — e, não por coincidência, parte de sua fortuna. Pois foi naquele ano que ele, pela primeira vez, convidou o DEBATE para fazer a cobertura da convenção do PDS que lançaria seu nome. O evento foi realizado na mansão de Joaquim Severino Martins.

Agradecido pelo convite, o jornalista Sérgio Fleury Moraes compareceu à convenção. Percebeu, de cara, que era uma cerimônia chata, com aqueles intermináveis discursos enaltecendo o líder político já em declínio. No entanto, seria uma descortesia deixar o local antes o fim da convenção. E lá ficou, entendiado.

Uma hora depois, eis que surge na residência o advogado Walter Rosa de Oliveira, filho do prefeito da época, Onofre Rosa, um histórico adversário de Joaquim e que se preparava para lançar seu vice, Clóvis Guimarães, na sucessão.

Walter era filiado ao PMDB. Sem qualquer cerimônia, Walter imediatamente abraçou o candidato do PDS. “Estou aqui para hipotecar o apoio do meu pai a Joaquim Severino”.

O repórter imediatamente iniciou as fotos, uma atrás da outra. Havia ganhado a noite, com um “furo” jornalístico que, na verdade, não se consumaria nas eleições. Mas aquele encontro certamente seria manchete.

De repente, retiraram Walter do local e a sala foi se esvaziando. A porta foi fechada e alguns integrantes da “ala radical” cercaram o jornalista. A ordem era entregar a máquina ou o filme — a tecnologia da época —, pois aquelas fotos não poderiam sair no jornal. Sérgio Fleury se agarrou ao equipamento e explicou que havia outras fotos de assuntos variados e que não poderia perder o filme.

A cena, angustiante para o jornalista, durou cerca de 20 minutos. Ele apertando o equipamento contra o peito e os “radicais” tentando tomar posse da máquina fotográfica. Até que Pedro Queiroz voltou à sala.

Sérgio, então, recorreu ao amigo e explicou a situação, ainda pressionado por um grupo de pessoas. Pedro pediu que todos se afastassem e indagou ao jornalista: “Você promete que esta foto não será publicada?”. Ante à resposta positiva, Queiroz pediu desculpas pelo inconveniente e mandou que os “radicais” abrissem a porta para a saída do jornalista. Houve protestos, mas Pedro chegou a ser rude com eles. “Deixa o menino sair, por favor”.

Já na redação do DEBATE, Sérgio telefonou a Pedro Queiroz. “Você sabe que eu jornalista. Portanto, menti para você”, disse, parecendo adivinhar a resposta, mas sentindo-se obrigado a dar uma satisfação a Pedro. “E eu não sabia? Fiz aquilo apenas para tirá-lo daquela encrenca”, afirmou Queiroz, rindo.

No domingo, o jornal circulou com uma foto em três colunas, mostrando Walter Rosa abraçado a um Joaquim Severino nitidamente constrangido, tentando se desvencilhar do advogado. A edição se esgotou rapidamente nas bancas.

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  • Publicado na edição impressa de 19 de julho de 2020