José Carlos Camarinha foi preso sem mandado e ficou incomunicável em Bauru, sem nenhum processo legal
Publicado em: 02 de abril de 2022 às 06:09
Atualizado em: 02 de abril de 2022 às 06:21
Sérgio Fleury Moraes
Aclamado pelo atual presidente Jair Bolsonaro, cujo ídolo é o torturador Carlos Brilhante Ustra, “título” reconhecido pela Justiça brasileira, o golpe militar de 1964 jogou o País numa ditadura que censurou a imprensa e os artistas, acabou com eleições presidenciais diretas, perseguiu intelectuais e assassinou militantes contrários ao regime. Seu fim, em 1985 com a eleição — ainda indireta — de Tancredo Neves, foi melancólico, com o Brasil mergulhado numa profunda crise econômica e inflação superior a 240% ao ano.
Em Santa Cruz do Rio Pardo, não houve nenhuma resistência ao golpe militar, e os grupos políticos, embora adversários ferozes, se acomodaram nas sublegendas da Arena, o partido de sustentação da ditadura. O MDB, a única legenda de oposição autorizada a funcionar pelo regime, só seria criado na cidade em 1975, pelas mãos do advogado Cláudio Catalano.
O clima pacífico, porém, destoava dos bastidores do novo regime. Três semanas após o golpe militar, o vice-prefeito José Carlos Camarinha foi preso e ficou “incomunicável” num batalhão militar em Bauru. Era o início da “caça às bruxas”, quando bastava uma denúncia para levar um cidadão à cadeia.
A denúncia contra Camarinha, que era um respeitado engenheiro civil na cidade e acabara de tomar posse como vice-prefeito de Carlos Queiroz, sugeria corrupção na construção do prédio da agência dos Correios em Santa Cruz. Não havia nenhum processo e nem ordem judicial de prisão, mas José Carlos foi levado assim mesmo.
Um mês depois, por absoluta falta de provas, ganhou a liberdade. Porém, continuou nas fileiras do partido da ditadura militar. Foi candidato a prefeito pela Arena em 1968, sendo derrotado por Onofre Rosa por 62 votos, e vereador por vários mandatos, exercendo duas vezes a presidência da Câmara.
Mas as denúncias contra supostos “subversivos” pipocavam nos bastidores da ditadura. O professor José Carmelo chegou a ser retirado da sala de aula da escola “Leônidas do Amaral Vieira” e levado preso pela equipe do delegado “Bronquinha”. Outro professor, Antônio Raimundo, foi afastado de suas atividades na escola e respondeu a um processo investigatório durante meses. Tudo sem ação judicial ou mandados.
Carmelo, que era um professor brilhante no “Leônidas”, logo deixou Santa Cruz do Rio Pardo e fez carreira na Universidade de Mogi das Cruzes.
A ditadura também prendeu outras pessoas, como o advogado Ismael Gonçalves Lino e o músico Dário Nelli, tio do maestro Mário Nelli. Dário era um pacato santa-cruzense que tinha ideias ligadas à esquerda. Por isso, foi preso e perseguido durante muito tempo. Na ficha de Nelli no antigo Deops — mecanismo de repressão militar da ditadura — ele é registrado como “comunista” e “elemento simpatizante do Partido Comunista no interior de São Paulo”.
Em 1968, a ditadura recrudesceu com a edição do AI-5, que permitiu ações ainda mais arbitrárias do regime e a cassação sumária de políticos. Em 1970, o deputado santa-cruzense Lúcio Casanova Neto foi cassado pela ditadura militar três dias após ser absolvido de um longo processo na Justiça. Ele morreu em 2004, aos 91 anos, sem nunca saber o motivo de sua cassação.
O estudante santa-cruzense Edjalma Dias deixou São Paulo, onde estudava Economia, após ser alertado pelo cardeal D. Paulo Evaristo Arns de que poderia ser preso pelas forças militares. Voltou a Santa Cruz, mas foi capturado em 1972 e levado para os órgãos de repressão.
Edjalma escapou da morte porque a família procurou o então governador paulista Roberto Costa Abreu Sodré, cujo pai foi o segundo prefeito de Santa Cruz, que intercedeu pela libertação do estudante.
O Arquivo do Estado guarda a ficha de Edjalma Dias no Deops, inclusive com fotografia do santa-cruzense e informações sobre o codinome que usava na luta contra a ditadura: “Ari”. O registro diz que ele seria “simpatizante do Partido Comunista do Brasil”.
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